Crise-fobia e outros escritos

Muito antes de a crise-fobia começar já a sentia no meu lar. Fomos todos passando pelos anos fora e, inevitavelmente acabaram por sentir todos a mesma crise-fobia no estado concreto e absoluto. Ao invés de sobrar uma réstia de esperança para o mês seguinte falta um tanto ainda antes de virar a folha do calendário. Fazem-se contas, continhas ao mínimo e às “pretinhas” que possam ter ficado “entaladas” na carteira e, no fim, o resultado é nulo. Estica-se o sabão, o rolo do papel higiénico, o leite, o pão… a roupa vai até ganhar algum buraquito (com remendo), o calçado anda até gastar a sola, não se desce à baixa citadina para não se ver montras desmaiadas pelos nossos olhares que vão de passagem e nem lhe atiram piropos, nem tão pouco saem do lugar e ficam até desbotar no desânimo total.

Afinal a culpa nem está solteira. Junta-se às modernices de um tempo sem tempo para nada. É a máquina de lavar em vez da pia, é o carro em vez das pernas, é o sofá em vez do ar livre, é as prateleiras do hipermercado em vez das prateleiras domésticas com o fruto da terra, é a caixa de leite em vez da teta da vaca, é a caixa dos ovos em vez da capoeira e da galinha poedeira, é a máquina da terra em vez da enxada de olho… Já não se querem envolver de terra, monda e do cheiro da terra cavada…

Afinal estamos todos a ver o resultado duma evolução sem boa orientação porque não quiseram seguir os conselhos dos que hoje sofrem muito mais a sua própria derrota.

Vejam-se, nas horas de ponta, os engarrafamentos de viaturas congestionando as rotundas na fúria de chegarem antes que o “badalo” do portão lhes impeça a entrada ao serviço diário. Vejam-se os rostos de poucos amigos, os tiques, os dramas que aglutinam nas depressões psicológicas de um punhado de transeuntes esbaforidos sem saber como contornarem mais um dia de vida e sustentarem as bocas racionais e irracionais de moradias permanentes e decadentes...

E mais não escrevo para não ter de ouvir a retórica de que é preciso lutar contra o mal e alto falar o que de bem se tem ou faz, sempre com cara de anjo num ninho de abnegados servidores do vil metal que foi a nossa verdadeira ruína.

Tivessem feito bem a conversão e o equilíbrio do ter e o dever.

Posto isto, tenham bom fim-de-semana prolongado graças ao Divino Espírito Santo, ao domingo de Pentecostes e à segunda-feira da pombinha que são o exemplo da devoção, fé, partilha do pão, carne (nalgumas localidades) e vinho, o apregoar de alfenim e rosquilhas de massa sovada, o salivar de salgadinhos e outros doces que enfeitam as mesas do nosso 1º Bodo, o sétimo domingo depois da Páscoa. Deus será sempre o nosso melhor amigo!

Angra do Heroísmo, 17 de maio de 2013. Rosa Silva ("Azoriana")

Mural das cores

Verdes campos naturais
Onde o corpo teu passeia
Dos melros e dos pardais
Das abelhas na colmeia.

O anil dos céus e mares
Onde a nuvem faz volume
É refrão de tantos lares
Onde impera o ciúme.

Na tua pele dourada
Que aninha o belo Sol
Vem feliz a madrugada
Na ternura do lençol.

A alva luz do teu rosto
Quando olha para o meu
Enche de maio a agosto
Tudo o que o amor teceu.

É uma ciranda de cores
Sedução harmoniosa
Que se reflete em amores
Volta e meia em tons de rosa.

Em cada ilha o ilhéu,
Em cada ilhéu terra e mar…
De azul reflete o céu
Que ondula em teu olhar.


 




Rosa Silva (“Azoriana”)

Costumes cá da terra

Não sou muito de ir a vinhos mas é nesta semana que vão aos vinhos. Para quem não conhece os nossos costumes, tradições e folguedos, basta dizer que durante esta semana reúnem-se os mordomos do Bodo (de pão e vinho) e ala que se faz tarde vão buscar com grandes barris o produto da vindima do ano anterior. Dos Biscoitos de lava é que são vinhos de se lhes tirar o chapéu e de cair para o lado se abusarmos de “vira-vira” de copos no arraial domingueiro de Pentecostes (Para os cristãos, o Pentecostes celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e seguidores de Cristo, através do dom de línguas, como descrito no Novo Testamento, durante aquela celebração judaica do quinquagésimo dia em Jerusalém. Por esta razão o dia de Pentecostes é às vezes considerado o dia do nascimento da igreja. O movimento pentecostal tem seu nome derivado desse evento. Fonte: Wikipédia)

Na minha freguesia natal – Serreta - é que é um Bodo alegre, unido e partilhado. De tarde, após o cortejo de manjares em direção ao Império e zona próxima, colocam-se as mesas e bancos que esperam os pratos salgados ou doces e um punhado de amigos do Bodo. O pão é distribuído pelos irmãos na parte da manhã e, à tarde, é vê-los felizes na partilha vinícola acompanhada pela enchente de variedades (favas com molho picante são o prato favorito) que atraem o tal virar de copos cuja cor deixa uns bigodes roxos se a distração já começa a temperar o paladar.

A Filarmónica, com sua farda completa, centra-se neste arraial do Divino e toca algumas peças favoritas e abrem-se alas à partilha da alegria. Adoro lá estar naquele cantinho do céu…

Venha testemunhar isto que escrevo com a doçura do alfenim das promessas e a rosquilha da divindade.

2013-05-13

Rosa Silva ("Azoriana")

Bom Dia!...

Pois bom dia…

A seguir a um bom sábado (com corte de cabelo do benjamim e toiros na monumental), a um domingo (de aniversário da minha querida filha - completando-se vinte e dois anos da passagem do Papa João Paulo II pela ilha) bom despertador para uma coroação do DES Divino Espírito Santo com a fileira de gente agradecida pela esmola anterior de pão e carne, com um friozinho à moda antiga e com o sol a tentar ser forte para abraçar a novidade com um saltinho à saudade, é difícil não cair na tentação de se pasmar na segunda-feira rodopiando o pensamento para um punhado de emoções.

Lembro do final da missa domingueira de uma 6ª coroação com direito a ouvir-se o brilho do Hino do Espírito Santo tocado solenemente pela Filarmónica Recreio Serretense durante o ato de coroar três jovens da minha querida Serreta, sendo um do sexo feminino de rosto alegre e fresco, qual princesa da ilha.

Lembro do pórtico principal do Santuário de Nossa Senhora dos Milagres ser aberto com vista para o frontispício do Império serretense cuja novidade está estampada no basalto negro com uma coroa ladeada por um jarro de vinho e o bendito pão, parecendo um tapete sagrado marcando a frente de um chão acostumado a festejos sagrados e profanos.

Lembro de quase tudo… e pressinto a alegria de tantos que partiram daquele chão para outro chão finito. Lembro que estaremos, muitos que já circundam a velhice, à beira de sermos uma lembrança na mente dos que hão-de ficar a celebrar a Festa do Divino Espírito Santo, com um altar da Trindade, adornado da alvura misturada com o colorido da verdura e flores em tom suave...

E dou comigo de lágrima no olho recordando quem partiu… E dou, ainda, comigo a sonhar ter um altar daqueles na minha própria moradia para seguir, depois, em cortejo para a Casa onde se ouviram os primeiros coros da presença terrena, porque ainda sinto que “Eu creio, adoro, espero e vos Amo” Divino Espírito Santo da religiosidade terceirense...

Oxalá que lá fora esteja um dia coroado de Sol, alegria e muita azáfama preparatória do próximo e, mais uma vez, do 1º Bodo da Região com uma segunda-feira “santa”.

Hoje é dia de festejar Nossa Senhora de Fátima para os que creem, adoram e esperam o milagre de sempre.

Angra do Heroísmo, 2013-05-13.

Rosa Silva ("Azoriana")

Sexta-feira musical

Viva os jovens da Terceira
Sua arte e valentia
A tocar desta maneira
São um hino à alegria.

Cinco Ribeiras e Serreta
Em união ou parceria
São flores, cravo, violeta
No palco da melodia.

Ai como é lindo aqui estar
No coracão da Terceira

Ouvi-los como ondas do mar.


Meu coração já incendeia
De amor pela Bandeira
Que de belos toques se asseia.

Rosa Silva ("Azoriana")


 


Nota: Um enorme e sincero elogio ao grupo de metais (7 pessoas) da PSP de Lisboa. Em uníssono brindou-se com aplausos de gratidão e gosto pelo excelente serão que nos proporcionaram. Bem-haja!

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